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domingo, 2 de outubro de 2016

Descoberta a localização das lápides da ponte velha de Algés





"E eis-nos chegados à ponte que a Câmara de Lisboa fez construir em 1608 por conta do Real do Povo, mercê dos esforços e da tenacidade de um arrábico, que levou muitos anos de vida exemplar no convento de São José de Ribamar, chamado, em religião, frei Rodrigo de Deus."
Mário de Sampayo Ribeiro
"Da Velha Algés"

Separata do Boletim Cultural e Estatísco da Câmara Municipal de Lisboa 

Volume 1 - nº 3, 1938



De facto este mundo tem coisas do "arco da velha"...
Andava há anos em busca das lápides da antiga ponte velha de Algés e depois de muito procurar, pesquisar em arquivos e após diversos contactos para a CMO, cheguei à triste conclusão de que teriam eventualmente desaparecido para sempre perdidas algures num meandro camarário, a verdade é que nenhuma entidade, obra ou arquivo me conseguia explicar onde teria sido depositado tão grande pedaço da história algesina.
A ponte velha de Algés foi construída em 1608 e demolida nos anos 40 do século passado aquando do encanamento da ribeira, desde esse acontecimento que nunca mais se soube do seu paradeiro, até ontem.



De visita ao Palácio Pimenta, onde esta instalado o museu da cidade de Lisboa, a propósito de ver pessoalmente algumas peças e os jardins, aproveitei e visitei a exposição permanente sobre a história de Lisboa. Pena tive que a parte que nos mostra as origens pré históricas da cidade até ao século XVI) estivesse vedada, para obras ... desde Março (sem que ainda tenham sido iniciadas nem se ter contemplado uma redução nos 3 Euros da entrada).



 Restou-me então a relevante evolução da cidade nos últimos cinco séculos, e uma vez que foi a primeira visita que efectuei, sentia uma lógica curiosidade sobre o que iria encontrar naquelas salas. Ao entrar na primeira sala, parei no centro para efectuar uma vista geral ... louças de várias origens e vidros descobertos na Casa dos Bicos e no campo das Cebolas, alguns magníficos painéis de azulejo retratando a Lisboa pré terremoto de 1755, sinos de antigas igrejas lisboetas e alguns pedaços de edifícios retirados dos escombros do terremoto ... e de repente algo me chamou a atenção, junto à entrada perto de mim, duas lápides uma com o brasão da cidade outra dizendo "A CIDADE MANDOU FAZER ESTA PONTE NO ANO DE 1608"... ao ler estas palavras quedei-me entregue a uma imensidão de pensamentos em catadupa, seria possível que, aquelas sejam as lápides da ponte Velha de Algés que à anos procurava e que ninguém sabia onde se encontravam? Eram idênticas em tudo, mas sabendo eu que a cidade mandou construir diversas pontes nesse ano, pelo menos três no concelho de Oeiras e outras tantas em Lisboa (em todas foram colocadas lápides idênticas, como na da Cruz Quebrada por ex), seria necessário ou a comparação fotográfica, ou a existência  da sua proveniência nos registos das peças. As peças eram o item nº 1 da exposição, e na discrição apenas constava: "lápides com o brasão da cidade e data de construção 1608", nada que me indica-se de onde teriam sido retiradas, perguntei aos técnicos da CML, nada sabiam, consultou-se o arquivo on line a descrição era a mesma, no entretanto chama-se mais um técnico que prometeu ir investigar a questão e a coisa ficou por ali.



 Fotografei então as lápides mas desde logo, as fracturas no cimo, onde originalmente se encontravam duas cruzes, me pereceram familiares, e não me enganei, ao comparar as peças existentes na exposição com as fotografias que temos em arquivo, as semelhanças são evidentes e claras.
 Estamos portanto, perante uma importante relíquia das memórias algesinas, felizmente estão bem conservadas, expostas ao público para que todos as possam apreciar, tinha-se era perdido o conhecimento da sua origem e o seu passado, mesmo assim foram consideradas de muito relevo pela CML, a ponto de serem apresentadas nesta exposição
 Irei informar a CML destes novos dados de modo a que seja atribuída a correcta classificação ás peças, conservando-se assim, para memória futura um pedaço de história de Algés que se julgava desaparecida, bendita a hora em que me lembrei de visitar o palácio Pimenta e o museu da cidade.




sábado, 27 de outubro de 2012

A Ponte Velha de Algés


"E eis-nos chegados à ponte que a Câmara de Lisboa fez construir em 1608 por conta do Real do Povo, mercê dos esforços e da tenacidade de um arrábico, que levou muitos anos de vida exemplar no convento de São José de Ribamar, chamado, em religião, frei Rodrigo de Deus."
Mário de Sampayo Ribeiro
"Da Velha Algés"

Separata do Boletim Cultural e Estatísco da Câmara Municipal de Lisboa 

Volume 1 - nº 3, 1938



Mário de Sampayo Ribeiro (cuja obra acima referida admiro particularmente) menciona em 
"Da Velha Algés"
 o detalhado relato sobre a construção da Ponte Velha de frei António da Piedade sobre a Ponte Velha de Algés, o qual passo a publicar abaixo :






Lapides da ponte velha de Algés (que presumo estejam na posse da C.M.Oeiras) já sem as referidas cruzes que as encimavam, das quais ainda se notam as bases.


Positivo e negativo da lage virada a Norte com o escudo da Cidade de Lisboa

Positivo e negativo da lage virada a Sul com a inscrição "A CIDADE MANDOU FAZER ESTA PONTE NO ANO DE 1608"




No início do ano de 1848, numa publicação periódica lisboeta, a «Revista
Popular», semanário de «Literatura e Indústria» que se fazia acompanhar
de «gravuras originaes em madeira executadas por artistas nacionais», foi
impressa a que reputamos ser a mais antiga representação da desaparecida
Ponte de Algés, construída em 1608.
A gravura, de um artista não identificado, possui indiscutível valor iconográfico
e documental. Com um traço vigoroso e razoável rigor representativo,
revelam-se as características construtivas da velha ponte, que possuía um
só arco, de volta perfeita, com o tabuleiro de circulação a acompanhar a sua
modelação e alçado marcado por pilaretes e pináculos, solução que emprestava
uma maior elegância formal ao conjunto. O enquadramento paisagístico,
próximo e longínquo, revela a vegetação que brotava junto à ribeira, o
muro delimitador e um renque de árvores da quinta dos duques de Cadaval,
na margem esquerda, e uma casa, em posição travessa, na margem direita,
e, servindo de ponto de fuga de toda a composição, dois moinhos nos cabeços
de Linda-a-Velha.
Para lá da realidade representada, de meados do século XIX, que não diferiria
muito da do tempo da fundação da ponte, a gravura encerra outras
dimensões. Evoca a memória histórica de uma época em que as ribeiras,
mais ou menos caudalosas, que rasgavam o território oeirense e juntavam
as suas águas às do Tejo começaram a deixar de ser obstáculos à circulação
de gentes e de mercadorias que «das partes de Cascais, Oeiras e outros lugares
» pretendiam ir à capital (Frei António da Piedade, Crónica da Província
de Santa Maria da Arrábida…, 1737) e evoca a acção determinante de um
frade de Santa Catarina de Ribamar, Frei Rodrigo de Deus, que obteve junto
da Câmara de Lisboa a autorização e os meios indispensáveis à construção
das três pontes que passaram a servir o então Reguengo de Algés (sobre as
ribeiras de Algés, Linda-a-Pastora e Laveiras). Evoca, por outro lado, uma
paisagem natural e construída há muito desaparecida, seja a que a gravura
reproduz, numa atmosfera vincadamente bucólica e pitoresca que sensibilizou
outros artistas, como o rei D. Carlos (desenho a carvão, de 1886, muito
pouco conhecido, da «Ponte de Algés»), seja a que, num registo histórico
evolutivo, emerge em inícios do século XX, em que junto à ponte, qual fronteira,
surgem as chamadas «Portas de Algés», de controlo alfandegário e
policial, um moinho «americano», outras duas pontes e construções urbanas
que o tempo também acabaria por consumir. Evoca, ainda, mil e uma estórias
e vivências, que aqui, necessariamente, ficam por contar.
Texto acima da autoria de Joaquim Boiça