segunda-feira, 6 de junho de 2011

A PRÉ-HISTÓRIA DE OEIRAS


As excelentes condições naturais oferecidas pela zona ribeirinha do estuário do Tejo – clima ameno, abundância de água, bons solos agrícolas a par de uma posição geográfica privilegiada, foram desde a Pré-História factores determinantes para a fixação
das populações. A existência, no interior, de alguns “cabeços” ou altos, proporcionaram o estabelecimento de alguns núcleos castrenses agro-pastoris. É exemplo deste tipo de ocupação o Castro Eneolítico de Leceia, classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1963. As escavações arqueológicas aqui efectuadas evidenciam um conjunto de estruturas habitacionais e defensivas do Calcolítico Inicial. A este importante legado pré-histórico pode acrescentar-se a Gruta da Ponte da Laje (ocupada pelo homem desde o Paleolítico à Idade do Ferro) e a jazida de Outurela, datada da Idade do Ferro.


Do Castro de Leceia às paisagens actuais.
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A datação das peças encontradas nas escavações que têm sido realizadas no Carrascal em Leceia, sob a direcção do Arqueólogo João Cardoso, apontam para a ocupação humana desta zona já no quinto milénio antes de Cristo, provando que esta região já era habitada muito antes de ser edificado o Povoado Fortificado de Leceia.

Parte da muralha fortificada

Vestigios de uma habitação

Publicação da Camara de Oeiras sobre o Castro


Nas escavações realizadas este ano, em que participaram alunos da Universidade Aberta de Lisboa, da Universidade Nova e antigos alunos, já formados em História, da Universidade Autónoma, foram encontradas peças raras, mesmo no contexto internacional.

Tratam-se de polidores para machados, muito raros no Neolítico Antigo, mas também da mesma época, encontraram-se fragmentos de cerâmica decorados.

Segundo João Cardoso, estes achados provam que estes povos já eram bastante evoluídos e deviam ter nesta zona uma grande produção de peças de sílex, uma matéria-prima de muito valor na fabricação de artefactos.

Ainda segundo João Cardoso, as informações recolhidas nesta zona arqueológica, vão dar um importante contributo para o conhecimento das primeiras comunidades agrícolas no contexto nacional e europeu.

O sucesso das escavações deste ano deve-se também, segundo João Cardoso, ao apoio da Câmara de Oeiras, não só pelos subsídios, mas também pelo apoio logístico, como a retirada de terras, que de outra forma obrigariam a prolongar muito mais o tempo das escavações.


A descoberta de materiais originários da Fenícia indiciam o estabelecimento de relações comerciais com regiões do Mediterrâneo, facto que se prende com a posição privilegiada de Oeiras no estuário do Rio Tejo.


 
"Uma escavação no concelho de Oeiras, em Leceia, permitiu identificar as mais antigas peças em marfim em Portugal, num povoado pré-histórico com cerca de 11 mil metros quadrados, que hoje está integralmente à vista.

As várias peças encontradas, originárias da África, são de marfim em bruto e de produtos manufacturados com este material, e datam dos anos 2700 a.C a 2500 a.C. Com esta descoberta, os arqueólogos conseguiram provar que já nessa altura existiriam trocas comerciais, incluindo de bens de luxo, entre as zonas costeiras de Portugal e Espanha e o continente africano e asiático.
“A reunião entre os especialistas permitiu demonstrar a existência de trabalhos em marfim na pré-história”, afirma João Luís Cardoso, arqueólogo que participou nos trabalhos de escavação no povoado de Leceia, e que publicou os resultados da sua investigação na mais recente edição da revista científica “Antiquity”. “No caso das peças encontradas e que foram analisadas na Alemanha, o marfim vinha do norte de África, ou excepcionalmente do aproveitamento de um dente fóssil de um elefante”.
No entanto, este estudo não se centrou só em Portugal. Em Espanha, na região da Andaluzia oriental, Almería, o povoado Los Millares e as suas sepulturas demonstraram a existência de peças de marfim produzidas do elefante asiático. “Isto significa que tinham de vir do mediterrâneo oriental”, explica o arqueólogo, que é também professor na Universidade Aberta. E salienta: “É a primeira vez que se documenta a origem deste comércio, que no fundo atravessa todo o Mediterrâneo, relativamente à presença desse elefante. Já nessa altura havia um comércio a longa distância”.
João Luís Cardoso esclarece que já era do conhecimento daqueles que estudam este tema que, nessa altura, haveria relações comerciais entre os continentes por causa da afinidade das peças de carácter religioso, por exemplo. Porém, não havia a consciência de que tais relações seriam tão extensas. “Agora é possível demonstrar essas relações sobre a forma de marfim em bruto ou peças manufacturadas”.
Estas descobertas revelam também que na Idade do Cobre as sociedades já eram bastantes diferenciadas socialmente, pois os produtos de marfim que foram encontrados destinavam-se a pessoas de um nível social mais alto. “Não eram todas as pessoas que tinham acesso a essas peças de luxo”, diz João Cardoso. A maior parte das peças encontradas são alfinetes grandes, de toucado, feitos de marfim do elefante asiático. É desde logo inegável a relação comercial com o mediterrâneo oriental. Tais produtos só terão chegado à Península Ibérica através da travessia do estreito de Gibraltar.
Este trabalho arqueológico especializado só foi possível devido à contribuição de vários elementos. Os alemães Thomas Schuhmacher e Arun Banerjee fizeram parte da equipa e as escavações foram patrocinadas pela câmara municipal de Oeiras, por meio do centro de estudos arqueológicos do concelho. “É uma colaboração internacional que beneficia a arqueologia portuguesa”, destaca João Luís Cardoso."

*Publicado no Jornal Público de 13.01.2010 




Gruta da Ponte da Laje

 

Situada junto à margem esqª. da Ribeira da Lage, esta pequena gruta, com a forma de um corredor irregular e sinuoso, foi ocupada pelo homem durante largo tempo, desde o Paleolítico até à Idade do Ferro. As indústrias mais antigas aí recolhidas datam do Mustierense. Durante o Paleolítico Superior a gruta foi densamente ocupada, tendo-se encontrado várias indústrias, de que salientamos os materiais dos níveis solutrenses. Encontram-se aí também vestígios de enterramentos neolíticos, espólio com carácter Isticas da cultura campaniforme e cerâmicas das Idades do Bronze e Ferro. Os materiais encontram-se expostos no Museu dos Serviços Geológicos de Portugal.
Na povoação de Ponte da Lage junto à ponte sobre a Ribeira da Lage. Chega-se a este lugar através de um desvio na estrada Oeiras – Porto Salvo.

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