quinta-feira, 4 de maio de 2017

A União das Freguesias na Grande Vista de Lisboa de Gabriel del Barco



Na sala de exposição do terceiro piso do Museu Nacional do Azulejo, pode-se observar uma das peças mais notáveis à guarda deste Museu : A Grande Vista de Lisboa (ou Grande panorama de Lisboa), cujo tema é a representação da cidade antes do trágico sismo de 1755.
 O painel pertenceu ao Palácio dos Condes de Tentúgal, situado no largo de Santiago em Lisboa. A encomenda e a contextualização em que foi produzida, ainda hoje, permanece pouco clara, embora alguns avanços tenham sido dados, nos últimos anos, pelo especialista em estudos de azulejaria José Meco, que a atribuiu ao pintor de azulejos Gabriel del Barco (1649-c. 1703) e a datou de cerca de 1700.
 No contexto da azulejaria portuguesa, estamos perante um exemplar único, pela apresentação de Lisboa desde o sítio da Cruz Quebrada até Xabregas numa narrativa citadina completa, incluindo fortes, palácios, quintas, igrejas, conventos, mercados, fontes, moinhos de água e alguns símbolos cristãos como as cruzes. O movimento da Lisboa do século XVIII foi também registado em traços apressados, através dos quais surgem pequenas figuras humanas ocupadas com os afazeres quotidianos. Saliente-se ainda a graduação da perspectiva, que elege como zona principal o Terreiro do Paço, verdadeiro palco de todas as festividades ocorridas na Lisboa Barroca, para se ir esbatendo na representação das quintas e conventos dos arredores. Para completar esta breve referência à história do painel, resta realçar que a sua importância reside também, no facto, de ter permanecido num estado praticamente completo até aos nossos dias mantendo-se como um dos mais importantes documentos iconográficos para os Estudos da Olisipografia.
 Na enorme panorâmica, aparece o trecho marginal do Tejo entre a foz do Jamor, até região de Algés, passando pelos os morros de Ribamar, que é de especial relevo.  Podemos encontrar nele claramente a ponte sobre a ria e o Forte da Conceição, que foi colocado por erro na margem errada da ribeira, o Convento de Santa Catarina-a-Velha, na Cruz Quebrada e forte da Cruz Quebrada (já desaparecidos).




De todas as representações plásticas de Lisboa a mais vasta e sob certos aspectos a mais interessante é sem dúvida a Grande Vista de Lisboa. A enorme panorâmica que concentra em 21 metros de longo, Lisboa e arredores esteve, em exposição no Museu Nacional de Arte Antiga, a cujo fundo pertenceu, até aos anos 60. O espaço necessário para a sua condigna apresentação foi, desde sempre, problema relevante para a sua exposição e, assim, ocupou vários locais, nenhum respondendo bem aos ditâmes museológicos de um registo com a sua importância.
 Logo inicialmente, em 1903, a montagem dos azulejos no longo painel foi, ao que parece, condicionada ao espaço disponível na parte do átrio de entrada do antigo Palácio dos Condes de Alvor, vulgo "das Janelas Verdes", foi a panorâmica encurtada com a omissão de alguns azulejos dos extremos.
 Quando se iniciou a mudança dos azulejos para o edifício do Museu do Azulejo no Mosteiro da Madre de Deus , a grande maioria encontrava-se encaixotada ou amontoada a granel, procedeu-se então ao trabalho de reconhecimento desse fundo, fazendo-se as necessárias separações e triagens.
 Em um dos muitos caixotes, ainda com as tampas pregadas, encontraram-se azulejos que logo se reconheceu pertencerem a um conjunto ou painel: os ladrilhos, alguns partidos, ostentavam no verso (tardoz) as características marcas originais de ordenação e assim foi fácil dispô-los correctamente. Calcula-se facilmente o alvoroço do signatário quando «descobriu» que se obtivera um painel praticamente completo, ostentando trecho de paisagem urbana, facilmente identificável com a Grande Vista de Lisboa de que parecia fazer parte! Uma ligeira observação do que estava à vista permitia reconhecer nos edifícios o antigo Convento de Xabregas, ou seja, supor que estes azulejos constituiriam a continuação da grande panorâmica para o lado do Nascente. Poucos dias depois ao fazer-se a triagem de outro enorme amontoado de azulejos. dos mais diversos tipos, épocas e características, foram aparecendo azulejos manifestamente semelhantes aos da mesma vista lisboeta, com as coordenadas marcadas por forma e caracteres idênticos. Devidamente escolhidos, rebuscados os mais pequenos fragmentos que pudessem ter semelhanças cromáticas ou mesmo tipo de massa com os anteriormente descobertos, iniciou-se o longo trabalho de compor um painel que logo revelou ser maior do que o primeiro, se bem que em pior estado de conservação e menos completo; em breve se reuniu o número de peças suficiente para tornar o quadro visível e, assim, identificar alguns dos acidentes iconográficos com o sítio de Ribamar, a poente dos últimos edifícios que, nesta direcção, se mostravam na Grande Vista de Lisboa - o Convento de São José de Ribamar. Estaria-se, portanto, em face de outro extremo da panorâmica dos Condes de Tentúgal, a qual parecia ter sido encurtada quando da exposição no museu.
 Este segundo painel esteve montado a título provisório e para estudo durante alguns meses mantendo-se a esperança de que fossem aparecendo os azulejos que faltavam para completar o quadro. A esperança não terá sido em vão e, pouco a pouco, de cada vez que se procedia à triagem de novo «granel», apareceram azulejos inteiros ou fragmentos que se provaram pertencer ao quadro. Desta forma faltam apenas 4 azulejos completos e fragmentos de outros mas foi possível entender a representação e tirar dela o proveito da sua lição histórica.
 Pelo estudo das coordenadas chega-se à conclusão que inicialmente a Grande Vista de Lisboa não seria constituída por um único painel, tal como tem sido exposta, mas que estaria dividida em troços de número irregular de peças, provavelmente de acordo com os espaços onde estavam montados. Também se verifica que os painéis descobertos (e provavelmente todos os outros) tiveram sua moldura constituída por uma barra de dois azulejos de largura, o que era aliás o caso normal.

 A respeito deste lado poente do painel, existe um estudo muito interessante na revista "Olisipo" Nº 95 de Julho de 1961 no texto do Engenheiro J. M. dos Santos Simões "Iconografia Olissiponense em Azulejos", que nos elucida acerca dos imóveis e registos representados nos azulejos:

"RIBAMAR - Os azulejos que foi possível agrupar formam um painel com 8 azulejos na altura e 17 no comprimento, todos quadrados de 140 mm. Note-se no entanto que se encontraram pedaços dispersos e que seriam de uma primeira fiada vertical do lado esquerdo e que tinham 140 mm x 80 mm (fig. 2).  Como no caso anterior tão-pouco há uma ligação perfeita entre os azulejos extremos da Grande Vista e os deste painel, mas, desta vez, a falta deve resumir-se a duas ou três fiadas verticais, correspondentes à relativamente curta distância entre o convento de São José - último do lado poente na Vista que esteve nas Janelas Verdes - e o de Santa Catarina, primeiro do lado nascente deste novo painel.



 Além dos azulejos em falta e dos muitos fragmentados, nota-se que este pano sofreu corrosão por «salitragem» com destruição não só do esmalte mas da própria massa. Também a parte central esteve sujeita a forte calor o que provocou o «recosimento» de algumas peças e o aparecimento de recticulado característico. Teriam sido efeitos do Terramoto?
 Representa o painel o trecho marginal do Tejo entre a foz do Jamor, à esquerda do observador, e a vertente dos morros de Ribamar, isto é, precisamente, a zona hoje conhecida por Cruz Quebrada e Dafundo até Algés.
 Da Grande Vista de Lisboa, na extrema esquerda do observador, já se conhecia a ponte de pedra sobre o Rio de Algés e que o pintor dos azulejos coloca imediatamente a jusante da Torre de Belém, não indicando o forte de Nossa Senhora da Conceição que estaria melhor naquele local. Também ao desenhar a ponte não se deve ter cingido à verdade, a menos que esta obra-de-arte tenha sofrido alteração desde o tempo em que foi construída - 1608- e aquele em que foram pintados os azulejos - cerca de 1730 (18).
 As perspectivas estão assaz torcidas mas, no entanto, os acidentes topográficos e as edificações sucedem-se ordenadamente umas às outras. Assim, naquela última parte da Grande Vista, víamos que ocupam as suas posições relativas o Convento do Bom Sucesso, o palácio da Princesa, a quinta e palácio de Pedrouços, dos Duques de Cadaval, e, em frente deste, a Torre de Belém. Ao longe, no vale do Algés, as povoações de Outorela e Portela. Passada a ponte, começava a rampa que conduzia ao Convento de São José de Ribamar, com cujos edifícios se julgava terminar a panorâmica que veio do Largo de São Tiago.


 O painel agora «descoberto» vem aumentar aquela vista com o trecho da margem entre o Convento de Santa Catarina de Ribamar e uma ponte que se observa na banda da esquerda e que julgo ser a que ainda existe sobre o ribeiro que desce de Linda-a-Pastora junto à moderna estrada marginal, na Cruz
Quebrada. No alto da colina cujas abas desciam abruptamente sobre as rochas, vemos, à direita, o conjunto das edificações do Convento de Santa Catarina-a-Velha e do palácio que o 2.° Conde de Miranda, D . Diogo Lopes de Sousa, começou a edificar e que foi notavelmente ampliado por seu filho, D. Luís de Sousa - por antonomáxia O Cardeal- 19.º Arcebispo de Lisboa e Capelão-mor de D. Pedro II (19). Foi também este magnífico prelado quem mandou reedificar o Convento de Santa Catarina na forma em que o vemos nos azulejos.
 No sopé do monte de Santa Catarina, junto às rochas marginais, vemos nitidamente um forte de planta trapezoidal, tendo no interior do reduto edificações e vegetação abundante. O Padre Carvalho, já citado, enumera neste extremo de Lisboa, os fortes de Nossa Senhora da Conceição, junto à confluência do rio de Algés com o Tejo, o de São Joseph, defronte o convento do mesmo nome, o de Santa Catarina e o da Boa Viagem. Sabendo que este último ficava a jusante do vale do Jamor, temos, por exclusão de partes que o forte dos azulejos é o de Santa Catarina. Aliás basta notar a sua posição relativamente ao convento para se aceitar a presunção, se bem que, na verdade topográfica, o forte ficasse mais próximo da ponte, para o oeste.
 O Forte de Santa Catarina, também conhecido por Forte da Cruz Quebrada, ainda existe e precisamente na face que os azulejos apresentam. Sobre os paramentos de onde não desapareceram as ameias, eleva-se o conhecido prédio «acastelado» que foi mandado fazer pelo 3.º Barão de Sabrosa - capitão do Exército e governador do forte da Cruz Quebrada - João Infante de La Cerda de Sousa Tavares Pizarro. Foi aqui que viveu o Dr. Bernardino Machado, Presidente da República, permanecendo a propriedade na família.
 Daqui em diante a interpretação do painel de azulejos apresenta sérios problemas. Na verdade, vê-se entre o Convento de Santa Catarina e a ponte da extrema esquerda, um grupo de edifícios enquadrados por arvoredo e que pela configuração parecem pertencer a algum convento. Por outro lado o forte de Santa Catarina que na realidade está quase junto à ponte da Cruz Quebrada, aparece nos azulejos sensivelmente longe dela, ficando entre ambos os tais edifícios com longa escadaria que nasce encostada às guardas da mesma ponte. Foram baldados todos os esforços para encontrar restos de outro edifício religioso - ou mesmo civil - entre o Convento de Santa Catarina e as margens do Jamor que pudesse responder, pela época ou configuração, àquela que nos mostram os azulejos, e, no entanto, tal edifício não foi, certamente, inventado pelo pintor, tão cuidadoso e minucioso na implantação e retrato dos acidentes Sendo assim, como explicar esta aparente anomalia?
 Segundo os textos citados, sabemos que os Arrábidos de Santa Catarina ocuparam o terreno do Cano do Mouro onde edificaram o Convento Novo, também da invocação de Santa Catarina - Santa Catarina-a-Nova e que este era «mais abaixo» do Convento Velho (segundo a Coreografia Portuguesa), «pouco distante» (segundo o Claustro Franciscano) ou «em pouca distancia ... mais para a foz do mar» (segundo o Espelho de Penitentes). Estas palavras levam a pensar que a nova casa conventual ficaria perto do convento abandonado, e, daí, poder ser localizado entre este e a foz do Jamor, ou seja, sensivelmente onde os azulejos mostram o tal grupo de edificações. Porém, sabemos pelos mesmos textos que, logo que o Convento de Santa Catarina-a-Velha foi reconstruido, para lá voltaram os frades, e com eles, a imagem do orago, passando o Convento Novo a ter a invocação de Nossa Senhora da Boa Viagem, pela qual ficou a ser conhecido.
 Ora a verdade é que o Convento da Boa Viagem, cujas ruínas chegaram aos nossos dias - tendo desaparecido os vestígios mais importantes quando se construiu a Estrada Marginal Lisboa-Cascais e o Estádio Nacional - era tido como localizado na margem direita do Jamor, no sítio ainda hoje conhecido pela Boa Viagem em cujo alto se conservou, por memória, uma pequena ermida. Era aqui, também, que estava o Forte da Boa Viagem, e em todas as cartas antigas onde se traça a barra do Tejo, lá aparece assinalado tanto este forte como um edifício com uma cruz - indicativo de igreja,
ermida ou convento.
 A não ser que o pintor dos azulejos tivesse tomado exageradas liberdades com a topografia - o que não parece ser o caso se considerarmos toda a restante panorâmica - os edifícios que se vêem no painel a cavaleiro da ponte e a esta ligados por escadório, não podem ser os do Convento da Boa Viagem, que ficavam mais a poente, do outro lado da ponte.
 No local onde nos parece terem estado os edifícios retratados ergue-se há muitos anos uma vivenda - a Quinta da Bela Vista - edificada sobre casa antiga é certo, mas de que a tradição não guardou notícia de ter sido convento. Houve ali uma capela de Nosso Senhor dos Aflitos, imagem muito devota e onde concorriam romeiros: seria esta capela a que o pintor dos azulejos quis representar? Não me parece que a relativa sumptuosidade e volume dos edifícios possa ter sido de uma ermida devocional ...
 Dar-se-ia o caso de, já antes da transferência da invocação de Santa Catarina para o Convento Velho, ou seja quando o Convento Novo passou a chamar-se de Nossa Senhora da Boa Viagem, existir alguma capela no «sítio» da Boa Viagem e terem os frades aproveitado esta invocação para o convento de baixo?
 Eis um pequeno problema que poderá interessar os historiógrafos de Lisboa. ou daquelas bandas arrabaldinas ...
 A ponte, essa, é que parece não ser outra diversa da que ainda ali se encontra, ou seja aquela a que se refere tão copiosamente o Cronista da Arrábida e que ficava sobre o rio que vinha de Linhalpastor (Linda-a-Pastora)."
 Porque se trata de um valioso testemunho para a história de Lisboa, e porque a sua leitura é tão agradável como pitoresca, não resisto ao desejo de reproduzir as palavras de Frei António da Piedade.  Escreve o Cronista, tratando da vida do Venerável Frei Rodrigo de Deus, religioso que foi do Convento de Santa Catarina:



 «Padecião grande trabalho todas as pessoas que das partes de Cascaes, Oeiras e outros lugJres vinhão à Cidade de Lisboa, por causa dos rios de Laveiras, Linhalpastor e: Alges, que vão desaguar na anseada de S. Joseph. Ordinariamente, que quando vínhão ou quando se recolhião para suas casas, os achavão crescidos, por causa da maré que enchia; e querendo vadeallos, se vião muitas vezes em evidente perigo de se afogarem e algumas pessoas padecião esta desgraça. Não era tambem pequena a que experimentavão outras em suas almas, offendendo a Deos gravemente. Havia alguns homens deputados nas margens daquelles rios, para passarem às costa! assim a homens, como a mulheres, que não levavão cavalgaduras; e como falta-se às vezes o dia com a sua claridade, aproveitava-se o Inferno das obscuras sombras da noite, para se augmentar no lucro dos seus malévolos contratos. Condoído o Servo de Deos de tanta miseria e parecendo-lhe que era ignorada de quem a podia remediar, determinou representarlha, para que a todo o custo se obviassem tão grandes fatalidades. Pessoalmente foy hum dia ao Senado da Camera, em que era presidente D. João de Castro; e na sua presença, e de todos os mais Senadores expoz todos os referidos díscommodos; e com palavras que lhe dictava o seu caritativo zelo os persuadio a que mandassem fabricar pontes, e calçadas, para que tivessem as passagens seguras de todo o perigo, e os caminhos fossem menos molestos no tempo do Inverno. Difficultarão a empreza, attendendo ao grande dispendio que o Senado havia de fazer; mas como as razoes que lhes dava fossem efficazes para lhes atrahir as vontades, se resolverão a pôr em execução a proposta, mas com a condição de que havia de correr toda a obra por conta do seu zelo. Derão neste arbítrio fiado em que assim como mostrava tanto desvelo em requerer pelo remido dos proximos, não seria menos zeloso em cuidar que o dinheiro que se houvesse de gastar fosse bem merecido e com fidelidade dispendido. Aceitou a commissão no que pertencia à direcção das obras, e vigilante assistencia dos officiaes, escolhendo por companheiro, com licença dos Prelados, a Fr. Manoel das Chagas, pela muita capacidade que lhe conhecia para este ministerio. Logo fez conduzir todos os materiaes necessarios e distribuhio os officiaes por varias partes para que tendo a emulação a mayor parte na superintendencia, se concluisse a obra com brevidade e perfeição. Principiou pelo Lugar de Pedrouços, e defronte delle mandou fazer huma pequena ponte, para resguardo das lamas do Inverno. Comprehendeo as margens do rio de Alges, junto à Quinta que hoje possue o Duque de Cadaval Nuno Alvares Pereira, com outra ponte levantada sobre hum forte e grande arco, em que de huma e outra parte se entra por calçada, que tambem mandou fazer. Antes de chegar ao Convento de S. Joseph os que vem de Lisboa em distancia de dous tiros de mosquete, mandou levantar huma cruz de marmore, bornida com todo o primor, e de hum e outro lado duas calçadas, huma que se termina no Convento e a outra que se dilata por Barquerena Caspolima e outras partes, que terá mais de meya legoa de comprimento. Ao pé do monte de Santa Catharina, para facilitar a quebrada de huma passagem, ordenou se fizesse huma pequena ponte; e mais adiante collocou outra Cruz como a primeira., e junto a ella principiou huma ponte fermosa de trez arcos, em cuja fortaleza achassem os tempos, e as aguas mayor resistencia. Na fabrica desta ponte mostrou mais apurado o seu desvelo, por ser esta a passagem que mais o havia provocado às lamentaçoes que fazia e que o obrigarão a aceitar aquella incumbencia. Seguindo as margens do rio ate o Lugar de Linhalpastor, nelle mandou tambem fazer outra ponte de trez arcos, e junto a ella outra Cruz, como as duas mencionadas, e ao pé de todas fez gravar hum letreiro em que declara que a Cidade de Lisboa mandava fazer aquellas obras no anno de 1608. Em todas se dispenderão vinte e quatro mil cruzados; e senão fora a cuidadosa assistência deste Servo de Deus e de seu Companheiro, se gastarião muitos mais, cujas confissoes fazião os mesmos Senadores.


 A «fermosa ponte de tres arcos» é a dos azulejos, e, corroborando os dizeres do autor franciscano, ainda ostenta a inscrição comemorativa onde se lê:

A SIDADE MAND
OVFAZER ESTA
PONTE E AS MAIS
OBRAS A CVSTA DO
REAL DO POVO
NO ANO DE 1608

 para que não haja dúvidas sobre que «sidade» seria, lá está também, do outro lado, a «Nau dos Corvos», marca de Lisboa.


sábado, 29 de abril de 2017

Casa da Antiga Fábrica de Cerâmica de Montargila, património classificado ou nem por isso?



Classificada como património de interesse municipal no Plano de Salvaguarda do Património Construído e Ambiental do Concelho de Oeiras,  Edital nº 361/2012, situa-se na estrada que vai de Algés para Linda a Velha (Rua João Chagas) e encontra-se hoje ao abandono. É caso para perguntar se, ser classificado como património de relevo para a história das localidades altera em algo o modo como se trata da sua preservação e conservação no concelho de Oeiras.
 Apesar de edilidade oeirense ter as ferramentas necessárias para obrigar o proprietário a efectuar obras de restauro, poder efectua-las compulsivamente caso não sejam cumpridas as obrigações inerentes à posse de um imóvel deste tipo, a verdade é que quem se encarrega destas questões nos meandros camarários demonstra uma passividade e um incompetência acima de qualquer normalidade. No entretanto, os anos vão passando e dia após dia maravilhas da memória da região como esta vão caminhando a passos largos para a total ruína e eventual desaparecimento.
 Mais estranho nesta situação é a isenção parcial de pagamento de IMI de 30% que todos os imóveis classificados no edital camarário de Plano de Salvaguarda do Património Construído e Ambiental, por via de serem objecto de obrigações específicas de conservação e restauro, havendo até imóveis que estão isentos em maiores percentagens como é o caso do Convento de São José de Ribamar em Algés, ora estas obrigações não estão a ser cumpridas como é claro e em Oeiras olha-se para o lado e assobia-se. Não se compreende que continuando ano após ano o não cumprimento das suas obrigações, estes fundos imobiliários detentores destas propriedades continuarem a beneficiar de isenções de IMI ... deveriam talvez serem obrigados a pagar todos os anos anteriores em que não cumpriram com as suas obrigações...


 Gostaria de saber a opinião dos diversos concorrentes à União das freguesias e à municipalidade oeirense quanto a este particular, quer-me bem parecer que, é questão que muito poucos conhecem, esta triste realidade que, no caso da Casa da Antiga Fábrica de Cerâmica de Montargila se arrasta há coisa de 10 anos. Seria até suposto aquando da construção da urbanização que a rodeia ter sido negociado o seu restauro e conservação mas a realidade é que o imóvel ainda sofreu danos durante a construção da urbanização e restauros é o que se vê ...



















A Antiga Fábrica de Cerâmica de Montargila

 A Fábrica de Cerâmica de Montargila, foi fundada em 1897 por J. J. Almeida Junça, remodelada e ampliada em 1906, funcionou até aos anos 60. Fabricava telha, telhão, tijolo, e artigos de cerâmica. Esses artigos são hoje raros e muito poucos registos são conhecidos hoje em dia, por incrível que pareça um deles encontra-se aqui bem perto no parque urbano da Quinta de Santo António, alguns tijolos com o carimbo da fábrica, provavelmente do início do século XX embelezam a calha de recolha da parte entre média do belo aqueduto que ali se encontra. Esse património único da industria da região encontra-se hoje semi destruído e a caminho de desaparecer, tal é o desprezo com que é tratado que, dois destes tijolos se encontram há coisa de um ano dentro do lago e é comum ver a criançada que por ali anda entretida em os arrancar sob o olhar desinteressado dos pais. Falta de informação? De civismo? O que é certo que é que estes "detalhes da história" são mais que importantes para a memória futura e deveriam estar devidamente assinalados e preservados.






 Facto interessante que resultou da minha pesquisa foi a possível participação no negócio da fábrica em parceria com J. J. Almeida Junça do artista José Estevão Cacella de Victoria Pereira, importante mestre do azulejo português. É mencionado na sua biografia que terá sido dono da fábrica mas sabemos também que a família Junça sempre tratou da gestão da fábrica, seria portanto uma sociedade constituída pela família Junça e pelo artista José Pereira, os proprietários da fábrica até à sua extinção, pouco depois da morte do artista.
 A  Fábrica de Cerâmica de Montargila, não foi instalada na antiga estrada que ligava Algés a Linda-a-Velha por acaso, a sua localização foi sabiamente escolhida devido à proximidade da matérias primas necessárias à sua produção, assim sendo para além da fábrica encarregada da transformação da argila em produto final, foi também autorizada uma industria extractiva de alguma importância.  Anexa à fábrica era feita a exploração de uma mina a céu aberto (Barreira) na encosta hoje chamada de monte dos marinheiros, sobranceira a Algés. Esta industria extractiva encarregava-se da produção de calcário, saibro e sobretudo de barro (desde sempre matéria prima de eleição da região). Fui encontrar detalhes da sua produção no Relatório de Estatística de Pedreiras de 1936, pág 1a, o qual nos diz estarem ali empregados 1 administrador e 24 trabalhadores e que teriam sido extraídos nesse ano 277,500 toneladas de calcário e 40,800 de saibro para venda, assim como 19473,600 de argila para consumo da fábrica.




 Que me perdoe o ilustre mestre Mário de Sampayo Ribeiro por contrariar as suas teorias sobre a toponímia do lugar de Algés mas, a existência desta pedreira e o particular de uma das suas produções serem o calcário deita por terra as suas conclusões publicadas nas paginas 33 da conferencia "Da Velha Algés" de 1938 na parte "Aditamento".




PEREIRA, José Estevão Cacella de Victoria (1877 - 1952)

Nasceu em Leiria, em 1877. Era filho do Major e escritor Albino Estevão de Victoria Pereira e de D. Carolina Amélia Cacella Lobo. Coronel, cartógrafo, fazendo parte da Comissão de História Militar, ganhou neste campo várias distinções internacionais. Esteve em Moçambique, participou na Guerra dos Boers, e na Primeira Guerra Mundial. Desde muito novo revelou dotes para o desenho e aguarela, e ao casar, em 1904, com Maria Adelaide de Sousa Pereira, filha do pintor Pereira Cão, tornou-se, de certa forma, um discípulo deste Mestre no campo da azulejaria. Como pintor ceramista teve a sua própria fábrica, a Fábrica Montargila, em Linda-a-Velha, e possuiu uma obra muito vasta da qual destacamos os seguintes edifícios: alguns dos silhares no Hospital de Santa Marta; no pátio dos canhões do Museu Militar; no r/c do Mercado da Ribeira (antigo 24 de Julho); no Hospital de São José; na Estação Sul e Sueste (perto do Terreiro do Paço); no Banco Nacional Ultramarino; num dos pavilhões da Exposição do Mundo Português; na Quinta da Regaleira (um painel de azulejos que dá para um dos portões de ferro da escadaria e fachada), em Sintra; no palácio da Exposição de Sevilha de 1929 (actual Consulado Português em Sevilha); na estação ferroviária de Óbidos e em muitas outras obras e casas particulares pelo país fora, incluindo os Açores. Era grande-oficial da Ordem de Avis e possuía as medalhas das Campanhas de África, da Vitória, e a de ouro da Classe de Comportamento Exemplar. Morreu em Lisboa, em 1952, na sua casa da Rua da Junqueira, nº 200.




Uma obra magnifica, o Picadeiro da Codelaria de Rio Frio




O Picadeiro coberto (15x30m) e as Cavalariças possuem um conjunto azulejar atribuído, na sua totalidade, ao pintor José Estevão Cancela de Vitória Pereira (1887-1952), em parceria com a fábrica de cerâmica Montargila (Algés, 1897- década de 60 do século XX).






No picadeiro, corredor e escadaria  manifesta-se uma forte influencia  dos temas decorativos  da azulejaria do século XVII, com cenas emolduradas por conchas, enrolamentos vegetalistas, volutas caras de anjo aladas, meninos atlantes, cartelas em remates de azulejos recortados.










quinta-feira, 27 de abril de 2017

Algés, Rua do Mirante




Um dos raríssimos moinhos de vento que restam do importante passado rural algesino, que eu saiba restam dois das largas dezenas que existiam no início do século XX este é sem dúvida o mais bem preservado.
 Seria importante para a história local e para a memória futura que a CMO de alguma forma consegui-se preservar um destes mecanismos, ou conseguindo a sua doação ou em alternativa conseguindo a sua compra junto dos proprietários, seria muito interessante preserva-lo por exemplo num parque público.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Continua a utilização de produtos cancerígenos nos passeios públicos e jardins apesar de legislação aprovada em contrário.




O Conselho de Ministros aprovou em 26 DE JANEIRO DE 2017 a proibição o uso de fitofármacos em espaços públicos, como pesticidas e herbicidas. É, aliás, um herbicida potencialmente cancerígeno, o glifosato, componente principal do PISTOL AV (o pesticida que esta a ser aplicado na união das freguesias ALDC) que esta na origem da proposta, por ser largamente utilizado para destruir ervas daninhas. A lei entra em vigor 90 dias após a promulgação e pune os infractores com coimas até 22 mil euros, no caso de serem pessoas colectivas, por exemplo, as autarquias, a questão é que esta lei foi aprovada há coisa de um mês e mesmo sabendo da sua proibição, a união das freguesias decidiu utiliza-lo por ainda estar no prazo de implementação da legislação, os tais 90 dias. Ou seja, mesmo sabendo da perigosidade do produto, para pessoas, animais insectos, plantas e cursos de água, o município e a união das freguesias continuam a utilizá-lo, com a agravante de estarmos às portas da Primavera, época do ano onde o impacto no ambiente é maior. As entidades responsáveis revelam deste modo um total desrespeito pelos moradores e pela natureza. Relembro também que estes produtos deixam com esta legislação de, poder ser utilizados em meios urbanos, salvo raras excepções e apenas com autorização da Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária



O glifosato - um produto muito barato que substitui o controle mecânico, biológico, biotécnico no controlo de pragas e plantas invasoras - tem sido objecto de análise na Comissão Europeia, tendo em vista a renovação, ou não, da sua utilização por mais nove anos. Isto depois de a Agência Internacional para a Investigação sobre o Cancro da Organização Mundial da Saúde ter declarado, em Março de 2015, este produto químico como potencialmente cancerígeno para o ser humano.
 Passam a ser proibidos os fitofármacos em: passeios, jardins, parques de campismo, hospitais e centros de saúde, lares de idosos e escolas, ficando de fora as escolas de formação em ciências agrárias.
 Em 2014 venderam-se 1600 toneladas de glifosato no país, e este é um dos químicos mais usados na agricultura. No ano passado questionaram as responsáveis das 308 câmaras municipais, responderam 107 e apenas 18 não utilizavam glifosato. Ou seja, 83% dos que responderam admitiram utilizar o herbicida.
 As novas regras não se aplicam às situações em que haja necessidade de fazer face a uma praga. No entanto, exige a autorização pela Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária, quem regulamenta a aplicação de produtos fitofármacos. Recomenda, no entanto, que seja dada "prioridade à utilização de produtos cuja utilização é permitida em modo biológico e de produtos fitofarmacêuticos de baixo risco, quando disponíveis, ou quando não exista alternativa".
 Outra das medidas a adoptar é a obrigatoriedade de avisos que indiquem as entidades responsáveis, os tratamentos, a data de início e a partir da qual pode ser restabelecido o acesso às áreas tratadas, sem restrições, particular que esta a ser cumprido. A nova legislação determina também que seja dada preferência a produtos fitofarmacêuticos que não contenham substâncias activas incluídas na lista de substâncias perigosas prioritárias como é o caso do Glifosato.
 As penalizações por violação do disposto na lei podem ir de 250 a 3740 euros no caso de pessoas singulares ou de 500 a 22 000 euros no caso de pessoas colectivas.


PISTOL AV (REF. ) O produto que esta a ser utilizado nos passeios públicos na União das Freguesias de Algés, Linda-a-Velha, Cruz-Quebrada/Dafundo


 O Pistol AV é um herbicida residual, de contacto e sistémico. Elimina as infestantes
já estabelecidas e previne novas reinfestações por um largo período
 Pistol AV exerce um efeito “curativo” (acção foliar) e “preventivo” (antigerminativo).
 Controla a maior parte das ervas daninhas anuais e vivazes presentes no momento
do tratamento.
 A sua boa persistência (efeito residual) permite reduzir o número de tratamentos
com herbicidas. Acção polivalente.

Composição
40 g/l de diflufenicão e 250 g/l de glifosato (sal de isopropilamónio). Suspensão
concentrada (SC).

Acção residual com duração de 4-6 meses
APV nº 3886 concedida pela DGAV


É caso para perguntar que tipo de técnicos "responsáveis" temos, envenenar as pessoas e o ambiente para retirar as ervas daninhas parece-me tudo menos uma gestão responsável.


quinta-feira, 10 de novembro de 2016

“Eixo Verde e Azul”, o projecto e as dúvidas.





“Eixo Verde e Azul” é um projecto que pretende reabilitar a bacia hidrográfica do Rio Jamor e requalificar área circundante do Palácio Nacional de Queluz.

É um projecto intermunicipal que visa a criação de áreas verdes, a requalificação do espaço urbano e o estabelecimento de um circuito de mobilidade suave.

Os municípios de Oeiras, da Amadora e de Sintra e a Parques de Sintra assinaram um protocolo para a criação do “Eixo Verde e Azul”, no dia 14 de Julho do corrente ano, que foi assinado pelos presidentes das câmaras municipais de Oeiras, Paulo Vistas, de Sintra, Basílio Horta, da Amadora, Carla Tavares e pelo presidente do Conselho de Administração da Parques de Sintra, Manuel Baptista.

Este eixo visa requalificar a bacia hidrográfica do Jamor e a área circundante do Palácio, de forma a valorizar toda a região. Numa primeira fase, o investimento estimado é de cerca de 11 milhões de euros.

O projecto do Eixo Verde e Azul do Rio Jamor estabelece uma estratégia integrada de intervenção, destinada a criar um eixo ecológico ao longo do rio Jamor, assente na regularização do rio e defesa contra cheias, procedendo à requalificação do espaço público envolvente, melhorando o acesso das populações à natureza e ao património cultural e criando um circuito de mobilidade suave através dos concelhos de Sintra, Amadora e Oeiras.

O projeto envolve um programa conjunto de acções de cariz intermunicipal, que atende às necessidades de cada território, e define como objectivo comum a melhoria da qualidade de vida das populações e a dinamização da economia local.

A requalificação da bacia hidrográfica do Jamor e a consequente prevenção do risco de cheias assume-se como um objectivo prioritário. O projecto integra, assim, um conjunto de ações que irá promover a melhoria da qualidade das massas de água do Jamor e seus afluentes e assegurar o controlo dos caudais, tendo em vista a segurança de pessoas e bens nas áreas actualmente sujeitas a risco de inundação.

O “Eixo Verde e Azul” visa também melhorar o acesso das populações à fruição da natureza e do património, através da criação de espaços verdes e da implementação de um circuito de mobilidade suave ao longo dos concelhos de Sintra, Amadora e Oeiras.

A reabilitação do rio Jamor e seus afluentes vai desde a nascente até à foz, criando assim, um espaço público de qualidade em torno da linha de água e conferindo um novo corredor verde desde a serra da Carregueira até à Cruz Quebrada.

Além de “proteger, em especial, o património cultural único dos canais e jardins do Palácio Nacional de Queluz”, o projecto pretende a “requalificação do espaço público ao longo do rio Jamor e da ribeira de Carenque”.
A protecção dos “efeitos negativos do tráfego rodoviário” sobre o palácio, a melhoria da fruição pelas populações do monumento nacional e do espaço natural envolvente, e o favorecimento da “mobilidade suave entre Queluz e Caxias”, com ligação aos transportes ferroviários, contribuindo para o combate às alterações climáticas, também são objectivos do projecto.
Num diagnóstico ao rio Jamor, correspondente à área de reabilitação urbana (ARU) de Queluz/Belas, no território de Sintra, foram identificados “constrangimentos associados a questões de ocupação urbana” e “pontos de conflito” associados a registos de inundações, com consequências para as populações e património cultural.
O Jamor foi analisado em oito troços específicos, desde Belas (EN250) até aos jardins do palácio de Queluz, junto ao Itinerário Complementar (IC) 19, enquanto a ribeira de Carenque foi avaliada em três troços.

Entre as medidas estruturais avançadas pelos serviços municipais de Sintra estão a necessidade de limpeza e desassoreamento do leito do rio, a erradicação de espécies vegetais invasoras e a plantação de espécies autóctones.
O reforço estrutural das margens, a “formalização de áreas para produção hortícola”, ordenando a atual ocupação do solo com hortas e anexos, e a demolição ou relocalização de construções no domínio público hídrico são outras acções preconizadas.
O levantamento e monitorização de descargas de efluentes ilegais, com vista à sua eliminação, devem ser realizados em colaboração com os Serviços Municipalizados de Água e Saneamento e a gestora do sistema de saneamento do Estoril.
A estimativa de investimento, de Julho de 2015, orça em cerca de 5,298 milhões de euros, para oito troços dos dois cursos de água, sem contar com as zonas dos jardins do palácio de Queluz, da responsabilidade da PSML, e da Quinta do Senhor da Serra (Belas), por ser propriedade privada.






As dúvidas

Tudo neste projecto nos soa bem, desde a criação do corredor verde, ao sistema de ciclovias passando pela conservação do habitat do rio Jamor e da imensa mancha verde da Serra de Carnaxide. Acontece porem que este projecto com fundos comunitários me suscita desde já um rol de dúvidas e me deixa até um pouco perplexo com a assinatura pela CMO deste protocolo. 
 Analisando o que se sabe já desde projecto é claro que, a zona a preservar engloba a quase totalidade da Serra de Carnaxide e toda a bacia hidrográfica do Jamor das nascentes até à foz visando a regularização do rio e a defesa contra cheias. Parece-me evidentemente estranho que estando praticamente toda a Serra de Carnaxide quer do lado da Amadora quer do lado de Oeiras (20 hectares aprovados, mais 130 hectares de construção para aprovação já previstos no PDM) com projectos aprovados e já com as infraestruturas construídas e estando o projecto Porto Cruz na Cruz Quebrada também aprovado e previsto no PDM oeirense o conflito entre estes projectos é evidente. É claro que o projecto “Eixo Verde e Azul” colide de frente com os projectos Porto Cruz e da Serra de Carnaxide, a falta de mais informações disponíveis pela parte dos municípios envolvidos, deixa-nos apenas a porta da especulação aberta.
 Estaremos perante um retrocesso por parte da edilidade oeirense na autorização destes projectos? Estaremos perante uma jogada de bastidores para conseguir dinheiros imediatos de Bruxelas para um projecto que nunca será realidade? Para tirarmos algum tipo de considerações teremos pois de aguardar a disponibilização de mais detalhes. A verdade é que se continua a assinar estes projectos e protocolos sempre de forma sombria e sempre disponibilizando o mínimo de informação possível aos cidadãos acerca de questões que são do seu interesse, afinal de contas esta aqui em conta um futuro com mais qualidade de vida e a preservação de um espaço vital para a preservação da pouca biodiversidade local que ainda resta em Oeiras.
 A questão ambiental é hoje encarada como factor central do desenvolvimento sustentável duma terra ou de uma região ou país e como contributo decisivo para a qualidade de vida das suas populações
Esta última parcela com as características do que foi esta região, hoje em estado degradado, possui condições de excelência pela biodiversidade ambiental, que se devem traduzir em factores de atractividade e em vantagens de toda a ordem, a maior das quais de ordem cultural.
Depois de termos perdido tanta coisa deste nosso ecossistema, parece justo manter nesta área, salvo melhor opinião, um santuário ecológico que nos ligue ao passado mas que possa ser igualmente uma porta pela qual possamos melhor visionar o futuro, que não pode deixar de passar pela defesa do meio ambiente que recebemos como legado.
 Seria um território protector de uma fauna e flora, em risco de desaparecerem totalmente. Também é fácil imaginar as espécies autóctones a proteger, numa coabitação que já tiveram por milhares de anos, desta vez num espaço real. É um trabalho para gente altamente especializada. Passará por uma identificação dos valores naturais da área no que respeita às comunidades vegetais e à fauna, em função da sua importância. Mas preservar a Serra de Carnaxide e o rio Jamor é um desafio aliciante e exemplar e eficaz na protecção da natureza como existiu durante longos anos.
Será naturalmente de manter nesse espaço eleito, uma vida silvestre controlada, correspondente a padrões de uso onde a intervenção humana é nula ou muitíssimo reduzida.

a Serra de Carnaxide, com 215 metros, o ponto mais alto do concelho. Constitui, por isso, a área mais importante em termos geomorfológicos.
A área da Serra de Carnaxide (cerca de 15 hectares) e a sua envolvente guardam também vestígios arqueológicos desde a pré-história e cujas populações procuravam aqui um refugio seguro e terras férteis para cultivar.

Sou portanto totalmente pró um projecto com as características do apresentado no projecto “Eixo Verde e Azul”, apesar de me sentir imensamente reticente quanto à sua concretização pelos motivos apresentados anteriormente.
 Anexo em seguida o que se sabe acerca dos projectos aprovados pela CMO para a zona que engloba a serra de Carnaxide e o rio Jamor



SERRA DE CARNAXIDE PROJECTO, Concelho de Oeiras




Apesar de, na totalidade, o projeto prever cerca de 150 hectares de construção, para já só estão aprovados 20. E, para esses, o plano é já ambicioso:

Um hotel de quatro estrelas com duzentas camas
Uma unidade de 48 apartamentos assistidos
Uma clínica de saúde e bem-estar
Um silo automóvel com 600 lugares
Uma galeria comercial
Um centro hípico
Um hospital de medicina física e de reabilitação
Um lar de idosos/hospital residencial
Edifícios para serviços administrativos e escritórios


Uma serra disputada por animais





Situada a menos de cinco quilómetros de Lisboa, a zona conhecida como serra de Carnaxide não é realmente uma serra, mas destaca-se das redondezas pela altitude que tem e pelas vistas desafogadas, que vão desde a Ponte sobre o Tejo e Cristo Rei até Caxias, a sul, e da Amadora até à serra de Sintra, a norte. Apesar disso, e de grandes zonas da serra estarem já urbanizadas à espera de inúmeros projetos – alguns deles, polémicos – continua a ser um dos poucos locais dos municípios de Oeiras e da Amadora que ainda não foram ocupados por edificação intensiva.

Na reunião de câmara onde foi discutida a aprovação da Villa Cavallia, em maio de 2014, a votação redundou num empate entre os eleitos do movimento Isaltino Oeiras Mais à Frente (IOMAF) e os vereadores da oposição. Foi o voto de qualidade de Paulo Vistas, presidente do município, que acabou por dar luz verde ao projeto.



Plano Parcial da urbanização da Serra de Carnaxide CMO

Plano de Pormenor da Encosta Norte da Serra de Carnaxide (PPSC)


“Tenho sérias dúvidas que, com mais não sei quantos carros, as coisas não se tornem mais complicadas”, argumentava na altura Alexandra Moura, vereadora do PS, preocupada com a mobilidade da zona, que diz já ser complicada. Na altura também, a socialista disse que “aquilo que gostaria mais de ver para a serra de Carnaxide (…) era que houvesse um espaço mais de lazer”, pelo que o PS defende a alteração dos planos de ordenamento do território para a zona. Os atuais planos preveem que se possa construir em quase toda a serra, onde existem diversos troços de aqueduto subterrâneo que ligam ao Aqueduto das Águas Livres, em Lisboa, e que a câmara admite não conseguir preservar.

Para manter a serra tal como ela estava, o município teria de ter recursos financeiros para adquirir, ou para expropriar, para ficar com a serra e mantê-la ou, eventualmente, dar-lhe um caráter mais naturalizado”, lê-se na ata da reunião, numa citação atribuída a Paulo Vistas, que admitiu que era essa a solução que preferia. Estaremos perante a possibilidade de isto se tornar possível com os fundos comunitários?
Já o vereador da CDU, Daniel Branco, que também votou contra, defendia que “a serra de Carnaxide deve ficar como uma zona de equilíbrio ambiental”, admitindo no entanto que os trabalhos de urbanização já feitos impedem que a área seja totalmente verde. Falando ao Observador, o eleito comunista lembra que, para a serra, embora para outra zona, chegou a ser apresentado um projeto para a criação de uma aldeia de macacos. “Uma história mirabolante, surpreendeu-me muito”, diz. “É só animais, despachámos os macacos e agora apareceu a Villa Cavallia”.

Esse projeto com macacos, levado a uma reunião de câmara menos de dois meses antes da discussão sobre os cavalos, era apadrinhado pela Associação de Jardins-Escolas São João de Deus e previa a criação de um parque pedagógico onde diversas espécies de macacos iriam “viver livremente em espaços amplos, em ambiente natural” para gáudio dos visitantes que poderiam “circular em torno de dez recintos rodeados de água, formando cascatas e diques”. A proposta foi evidentemente rejeitada.

Empreendimento SKY CITY Serra de Carnaxide (Venteira), Amadora




Projecto Porto Cruz na Cruz Quebrada



O plano de pormenor permite a construção de um viaduto sobre a marginal e de cinco torres, uma delas com 20 pisos, destinadas a habitação, comércio e serviços. Vozes críticas consideram que o projecto é "ilegal".





O plano que contempla a construção de cinco torres – uma delas com 20 pisos -, uma marina e uma piscina oceânica na margem direita da foz do rio Jamor, na Cruz Quebrada, concelho de Oeiras, gerou polémica. Os opositores avisam que o projecto, designado Porto Cruz, vai aumentar o risco de cheias na zona mas a autarquia garante que a área permeável será maior do que a actual e que serão tomadas medidas para minimizar o risco de inundações.

O plano de pormenor, que abrange uma área de 26,7 hectares na qual se incluem os terrenos da antiga fábrica de telhas de fibrocimento da Lusalite, encaixados entre a Avenida Marginal e o rio Tejo, foi aprovado  pela Assembleia Municipal de Oeiras, depois de mais de uma década de discussão.

Este será no mínimo um projecto polémico, desde a sua primeira apresentação que foi imediatamente alvo de contestação por parte de um bom numero de moradores da Cruz Quebrada e pela Liga dos Amigos do Jamor. Não me irei alargar em relação à polémica nem aos argumentos de ambas as partes e irei considerar apenas os detalhes relativos ao projecto, que irá fazer desaparecer a praia da Cruz Quebrada.






Fontes - 

Site da CMO (http://www.cm-oeiras.pt)

Plano de Pormenor da Encosta Norte da Serra de Carnaxide (PPSC) CMA

Plano Parcial da Serra de Carnaxide CMO

luzdequeijas.blogs.sapo.pt

observador.pt

www.facebook.com/Liga-dos-Amigos-do-Jamor-